CAPITALISMO DA MENTIRA : Fazedores de crashes bolsistas

By: 
Ibrahim A. Warde
Date Published: 
August, 2002
Publication: 
Le Monde diplomatique
Language: 

 

 

O retrato idílico dos mercados financeiros americanos fazia parte do discurso convencional acerca da nova economia e da globalização: os dirigentes das empresas "criam valor" e são por isso remunerados; as stock-options1 e os regimes de reforma alinham os interesses dos assalariados pelos dos accionistas; a democratização da finança permite estender os efeitos benéficos dessa "criação de valor" ao maior número de pessoas; uma quantidade de contrapoderes (leis, analistas, Conselhos de Administração, revisores oficiais de contas, imprensa) garante a integridade dos mercados2.

A década de expansão económica – Março de 1991 a Março de 2001 – foi, por certo, salpicada por escândalos (casos de fraude ou de especulação, nomeadamente sobre produtos derivados), mas foram atribuídos a determinadas ovelhas ranhosas. O vocábulo de referência utilizado – rogue (literalmente, vadio) – sugeria a insubordinação e a dimensão atípica. Esses acidentes de percurso não punham sequer em causa o discurso dominante, porque constituíam verdadeiramente a excepção que confirmava a regra, e provavam a capacidade de auto-regulação do sistema. Invariavelmente, após um breve período de incerteza, os mercados voltavam a arrancar com mais pujança.

Fortalecidos pela boa saúde da sua economia e por mercados bolsistas que desafiavam as leis da gravidade, os dirigentes americanos pregavam aos quatro ventos a urgência da adopção dos métodos anglo-saxónicos: desmantelar os sectores do Estado para libertar as forças do mercado e pôr cobro ao "crony capitalism"3, gerador de corrupção generalizada. As elites globalizadas e os seus respectivos trovadores repisavam o mesmo pregão. Neste sentido explicava Alain Minc (que ultimamente tem andado mais discreto): "O êxito dos Estados Unidos exerce uma pressão difusa para nos obrigar a combater a nossa própria rigidez. Saudemos o milagre, aceitemos o mistério e, essencialmente, sigamos o exemplo"4.

Economia milagrosa?

O milagre foi abundantemente saudado, o exemplo amplamente seguido. E, no registo do mimetismo cego, ninguém chegou a ir tão longe como Jean-Marie Messier, que se vangloriava de ser "o mais americano dos empresários franceses". Finda uma breve ascensão, conheceu a sorte dos empresários "visionários" cujos métodos procurara imitar: a descida aos infernos do grupo Vivendi coincidia precisamente com o desmoronar de vários símbolos dessa economia milagrosa.

A série negra começou a 2 de Dezembro de 2001, com a retumbante falência da Enron, o gigante do sector energético. No espaço de alguns anos, a empresa do Texas tinha ascendido ao sétimo lugar na classificação das empresas americanas, registando um volume de negócios superior a 100 mil milhões de dólares. Para os teóricos da gestão, este emblema da nova economia representava o futuro. Detendo poucos activos reais, esta corretora de uma nova espécie conseguia, graças às mais complexas engenharias financeiras e aos conceitos mais arrojados, criar, em qualquer parte e permanentemente, "valor". Não houve uma business school que não glorificasse o caso da Enron, nas disciplinas de estratégia, finança ou ética. Entre 1996 e 2001, a firma de Houston foi condecorada pela revista Fortune com o galardão de empresa mais inovadora. Em 2000, o Financial Times nomeava-a "grupo energético do ano", enquanto o The Economist qualificava o seu responsável máximo, Kenneth Lay, como "messias da energia".

"Empresa cidadã", a Enron era membro de pleno direito do establishment, distribuindo generosamente fundos, favores e louros. O seu patrão, Lay, padrinho financeiro de George W. Bush e seu amigo íntimo desde há mais de vinte anos, concedeu-lhe (a título pessoal e através da sua empresa) mais de dois milhões de dólares5. Assessor muito escutado quando o actual presidente era governador do Texas, desempenhou um papel de primeiro plano na elaboração da política energética da nova administração. O secretário de Estado das Forças Armadas, Thomas White, antigo dirigente da sociedade, mal fora nomeado prometera "aplicar os métodos do sector privado ao sector público".

Menos de um mês antes da falência, Alan Greenspan, presidente da Reserva Federal, recebia o "Prémio Enron" atribuído pelo Instituto James A. Baker III (do nome do secretário de Estado do antigo presidente George H. Bush). Mas a Enron, campeã todo-o-terreno da "gestão do risco", tinha assumido riscos consideráveis, que as incompreensíveis montagens financeiras se dedicavam regularmente a dissimular. A queda foi tão imprevista quanto brutal6.

O caso abalou um dos alicerces do credo da "nova economia": o princípio do "win-win" ("toda a gente fica a ganhar"). Entre 1998 e 2001, a cotação das acções triplicou, contribuindo para o enriquecimento dos dirigentes, accionistas e empregados, cuja poupança-reforma era investida em acções da empresa. Mas nem todos ficaram a ganhar até ao fim... Enquanto 98 por cento do "valor" da Enron se esfumava em escassos meses, os principais quadros concediam a si próprios sumptuosos bónus de saída; quanto aos iniciados, aliviaram-se do peso das suas acções, ao passo que os assalariados da empresa descobriam que, à luz de um regimento interno, lhes era proibido venderem as deles.

De caminho, o gigante da auditoria Arthur Andersen – que desempenhou um papel activo na construção de duvidosas montagens financeiras e, sobretudo, na destruição de documentos comprometedores – afundava-se. Depois deram-se os casos Tyco, Global Crossing, Qwest, Adelphia Communications, Merck, Halliburton (cujo patrão, quando foram cozinhadas as contas, era, imagine-se, o actual vice-presidente Richard Cheney). Por todo o lado, os quadros dirigentes saquearam as respectivas empresas com a cumplicidade activa dos supostos "contrapoderes". Revelação após revelação, a fraude parece envolver montantes cada vez mais vultosos: a Enron "só" tinha escondido dívidas no valor de 2 mil milhões de dólares; a WorldCom tinha omitido a contabilização de custos no valor de 3,85 mil milhões de dólares; a Xerox tinha empolado as suas vendas no valor de 6 mil milhões de dólares; a Merck tinha apurado um volume de negócios fictício no valor de 12,4 mil milhões de dólares.

Empresas delinquentes

Estas empresas partilham diversas características. Em primeiro lugar, o facto de os seus patrões gozarem de uma hiper-mediatização e terem um discurso muito escorreito relativamente à inovação, governação empresarial, ética e responsabilidade. Impunha-se, com efeito, uma política de comunicação "agressiva": por si só a cotação bolsista reflectia o valor criado pelos dirigentes (e a sua remuneração disso dependia); tornava-se, por conseguinte, imprescindível "gerar" essa cotação cultivando assiduamente as relações com a imprensa e os analistas. E o mínimo que pode ser dito é que os jornalistas se prestaram ao jogo...

A outra característica comum a estas empresas delinquentes é a de terem frequentemente recorrido aos grandes gabinetes de consultoria (em particular a McKinsey, a mais prestigiada) e de terem generosamente remunerado, sob os mais diversos pretextos, os grandes gurus da gestão e os economistas mais conceituados, para dar a estas políticas de fuga para a frente um ar de "estratégia inovadora", e para transformar megalómanos em "visionários".

Será que ainda se pode alegar que os escândalos apenas se devem a algumas ovelhas ranhosas? Até mesmo aqueles que ontem louvavam as empresas depostas não se coíbem de evocar a "corrupção generalizada" e uma "crise sistémica"7. Sectores inteiros (Internet, telecomunicações) e classes profissionais (analistas, revisores de contas, consultores, imprensa financeira, gurus da gestão) vêem as suas figuras de proa envolvidas neste empreendimento de mistificação.

Como se chegou a este ponto? Paulatinamente, ao longo da última década, a liberalização económica acelerou-se, os mecanismos de protecção foram caindo e as autoridades da tutela assistiram a uma redução tanto do seu financiamento como do seu poder, a favor de uma regulamentação pelo mercado baseada em controlos internos e "códigos de boa conduta". Quando as "muralhas da China" (entre actividades de consultoria e de contabilidade para as firmas de auditoria; entre bancos comerciais e de investimento para o sector financeiro) ruíram em nome da livre concorrência e de supostas sinergias, o sistema transformou-se.

"Profissões" que, até então, levavam a sério os seus códigos deontológicos transformaram-se em "unidades de lucro". Por parte dos contabilistas que, em tempos, zelavam pela sinceridade das contas, passou a prevalecer a imaginação: os "métodos agressivos" no limite da legalidade subverteram os princípios estabelecidos. Com a ajuda de analistas promovidos à patente de propagandistas, os bancos financiaram operações de fusão e aquisição destinadas ao fracasso, embora geradoras de rendimentos chorudos. E numa era em que o dinheiro é rei, as tão badaladas stock-options têm contribuído para insuflar os lucros a curto prazo e para manipular as contas8.

O actual presidente do Conselho de Administração da France Télécom, Michel Bon, referia à publicação mensal Capital em Dezembro de 1999: "A 20 de Setembro de 1997, a France Télécom passou a ser uma empresa cotada em bolsa. Quatro milhões de franceses – e três quartos dos seus assalariados – adquiriram acções desta empresa. Para além do acontecimento em si, isto simboliza algo: o reconhecimento de que o mercado se tornou o melhor meio para servir os seus clientes (ainda há dez anos, falar-se-ia em termos de utentes). Espero que esta realidade venha, dentro em breve, a ser válida em serviços de cariz não mercantil, tais como a educação e a saúde". O delírio de Bon já não está na ordem do dia. Nem tão pouco as suas esperanças?

 

Referências

(1) Opção de compra de acções por parte dos empregados (N. dos T.).

(2) Ler, por exemplo, Thomas Friedman, The Lexus and the Olive Tree, Farrar, Straus and Giroux, Nova Iorque, 1999 [edição portuguesa: Compreender a globalização. O Lexus e a Oliveira, Quetzal, Lisboa, 2000].

(3) Literalmente, "capitalismo dos amigalhaços" (N. dos T.).

(4) Richard Farnetti e Ibrahim Warde, Le modèle anglo-saxon en question, Economica, Paris, 1997.

(5) Charles Lewis, The Buying of the President 2000, Avon Books, Nova Iorque, 2000.

(6) Tom Frank, "As mil e uma vigarices da Enron", Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Fevereiro de 2002.

(7) "How Corrupt is Wall Street?", Business Week, 12 de Maio de 2002; "System Failure", Fortune, 24 de Junho de 2002.

(8) Ler "Dow Jones, mais duro será a queda", Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Outubro de 1999.

 

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