AS RAÍZES DE UM MITO : Alan Greenspan e os quarenta valores

By: 
Ibrahim A. Warde
Date Published: 
March, 2001
Publication: 
Le Monde diplomatique
Language: 

 

Alan Greenspan, presidente da Reserva Federal norte-americana (o banco central dos Estados Unidos), cultiva uma imagem de esfinge, tanto por necessidade como por simples temperamento. Enquanto o mundo das finanças não desiste de tentar sondar o seu pensamento, "o homem que faz tremer os mercados" arranja sempre meio de baralhar as pistas. Conta-se que até nas suas conversas privadas é enigmático, "de tal forma estão enraizadas nele a obscuridade verbal e a prudência (1)".

Durante muitos anos desdenhou a economia. Só muito trabalhosamente obtivera o seu doutoramento, tardiamente e graças a derrogações pouco habituais: dispensado de tese, o título foi-lhe concedido com base em artigos redigidos anteriormente e que o público não estava autorizado a consultar. Em 1974, algumas semanas antes da sua demissão de presidente, Richard Nixon convidava-o para presidir ao seu comité de conselheiros económicos.

Foi enquanto ocupou este lugar (que manteve durante o mandato de Gerald Ford, entre 1974-1977) que se viu confrontado com a primeira grande recessão do pós-guerra e elaborou numerosos planos de luta contra a "stagflation", todos eles votados ao fracasso.

A sua travessia do deserto durou dez anos. Foi lucrativa, mas sujeita a controvérsias. As previsões do gabinete Townsend-Greenspan eram sobretudo célebres porque se revelavam sempre erradas. Chegou a ser fiador da seriedade e da integridade de personagens muito duvidosas, entre as quais Charles Keating, promotor de bancos cuja falência custou vários milhares de milhões de dólares aos contribuintes norte-americanos (2)... Em 1987, o presidente Ronald Reagan nomeou Alan Greenspan presidente da Reserva Federal, posto que ainda hoje ocupa.

Quem quer que tente apreender as suas convicções mais profundas sairá derrotado. Durante perto de 15 anos foi um fervoroso discípulo da extremamente dogmática Ayn Rand, romancista e "filósofa", fundadora do movimento "objectivista" que persiste em provar a moralidade de um capitalismo selvagem. A carreira de Alan Greenspan caracteriza-se, todavia, pelo pragmatismo e pela flexibilidade.

Geralmente encarado como um republicano moderado, soube, nos círculos monetários, abraçar os contornos de políticas económicas por vezes contraditórias. Nomeado pelo presidente Nixon (ao qual se deve a fórmula "Somos todos Keynesianos"), acabou por namorar depois a economia da oferta, antes de se interessar pelo impacto da "nova economia" sobre a produtividade e os grandes equilíbrios económicos.

Apesar do seu fetichismo pelos números, é no instinto que mais seguia quando se trata de tomar grandes decisões. E, por detrás de uma imagem de intransigência, sabe tecer elogios até conseguir o que pretende. Enquanto republicano, teve um relacionamento difícil com a administração de George Bush (o antigo presidente considera que a travagem económica de 1990-1992 é que lhe custou a reeleição) e só gozou de verdadeira glória durante os dois mandatos de Bill Clinton. Conseguiu logo em 1993 convencer o jovem presidente a desistir da ideia de programas sociais ambiciosos e a eleger como prioridade absoluta a redução do défice orçamental. Foi aí que Bill Clinton proferiu a célebre frase: "O futuro do meu programa depende da Reserva Federal e do maldito mercado de obrigações".

O mito Greenspan é explicado pelo "boom" económico e bolsista dos anos 1990. A imagem convencionada é a de um guardião da ortodoxia financeira, respeitador do veredicto do "mercado". Na realidade, o governador da Reserva Federal esteve no cerne de intervenções maciças (operações de salvamento do sistema bancário norte-americano, em 1990-1991, do México, em 1994, da Ásia, em 1997, e do Hedge Fund Long Term Capital Management, em 1998), que iam sempre ao encontro da lógica proclamada. Porque era preciso proteger os operadores financeiros do seus próprios desvios. E salvar o mercado da catástrofe.

 

Referências

(1) Bob Woodward, Maestro: Greenspan's Fed and the American Boom, Simon & Schuster, Nova Iorque, 270 páginas, 2000, 25 dólares.

(2) Justin Martin, Greenspan: The Man Behind Money, Perseus Publishing Cambridge, Massachusetts, 2000, 284 páginas, 28 dólares.

 

Tous droits Réservés © 2011 Le Monde diplomatique.